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Atualizado: 14 de out. de 2020

A palavra warmis em quéchua significa mulher. Coordenadas pelo CEMIR, as rodas estão se estruturando em bairros da cidade de São Paulo onde há presença significativa de imigrantes. Abrangem, especialmente, mulheres que trabalham em oficinas de costura.



As Rodas Warmis são espaços voltados para a promoção da igualdade de gênero e do protagonismo de mulheres imigrantes. Em outras palavras, são grupos de mulheres que se encontram para conversar, em ambientes descontraídos, onde podem sentirse à vontade para falar de si mesmas, suas experiências, sonhos e desalentos. As rodas buscam dar voz e visibilidade às mulheres, estimulando a construção da autonomia por meio do diálogo e da reflexão para a ação. A palavra warmis em quéchua significa mulher. Coordenadas pelo CEMIR, as rodas estão se estruturando em bairros da cidade de São Paulo onde há presença significativa de imigrantes. Abrangem, especialmente, mulheres que trabalham em oficinas de costura, quase sempre em situação degradante, com jornadas de trabalho exaustivas, de 14 a 16 horas diárias, percebendo salários de cerca de setecentos a mil reais por mês.

Segundo Paulo Freire, “empoderamento é dar ao grupo o poder de decisão, em vez de tutelá-lo”. Nessa linha, as Rodas Warmis buscam dialogar diretamente com as mulheres, por meio de encontros mensais. O processo de empoderamento não é algo que acontece da noite para o dia. As experiências de vida partilhadas nas rodas surpreendem muitas vezes, alargando nossas visões de mundo.

As Rodas Warmis lidam com um amplo espectro de particularidades: trata-se de mulheres invisibilizadas pela situação migratória irregular, vivendo, frequentemente, em contextos de discriminação e opressão, enfrentando dificuldades em relação ao idioma e ao desconhecimento de direitos, precariamente inseridas na sociedade que as deveria acolher. Diante de tantas diferenciações, são inúmeras as barreiras que encontram pela frente. Falar de si mesmas e poder ouvir as demais são passos importantes para a saída do isolamento.


A organização das rodas conta com o apoio de lideranças das comunidades de imigrantes, mulheres que atuam como força mobilizadora para formação dos grupos. Os temas dos encontros são sugeridos pelas próprias mulheres e trabalhados em sintonia com os objetivos da agenda 2030 da ONU Mulher. Um aspecto importante do processo é o deslocamento ao encontro do grupo nos bairros, ou seja, as facilitadoras vão até as mulheres e não contrário.

Nos bairros onde se consolidam, outras atividades abertas à comunidade podem ser oferecidas, como oficinas de português, cursos de modelagem e de empreendedorismo solidário. Há três grupos em funcionamento no momento. A meta é chegar a seis grupos até o final de 2019 e início de 2020.

A primeira Roda Warmis foi formada no bairro da Penha, zona leste da capital, com as equipes de futebol feminino que se reúnem aos domingos no Parque Tiquatira. Curiosamente, os primeiros encontros coincidiram com a realização da copa do mundo de futebol feminino na França, no início de 2019, o que acabou criando um clima favorável para a abordagem da discriminação de gênero a partir do futebol. A voz irreverente da capitã da seleção norte americana, Megan Rapinoe, eleita melhor jogadora do mundo, repercutiu na mídia, chamando a atenção da sociedade para a necessidade de enfrentamento dos padrões de discriminação e desvalorização da mulher na esfera do trabalho e na vida como um todo. No momento, está sendo preparado o primeiro torneio de futebol feminino com as equipes campeãs de bairros, sempre na perspectiva de unir lúdico e resistência.




As Rodas Warmis desenvolvem-se por meio de dinâmicas flexíveis e de acordo com as possibilidades do grupo. A informalidade, a empatia e o respeito ao tempo de cada uma são, porém, elementos sempre presentes. Acreditamos que a realidade das mulheres imigrantes deve ser abordada a partir de suas próprias narrativas para dar voz a suas reivindicações, evitando levar até elas visões preconcebidas.

As rodas buscam transformar experiências de vida em força e resistência. Enfrentar a dominação exige compreender os mecanismos escondidos por detrás de padrões sociais estabelecidos.


 

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